500km, 2 países, 1 cordilheira e 1 oceano.
Uma das rotas mais famosas entre os cicloturistas da América Latina é a travessia Mendoza - Santiago, cruzando a inadjetivável Cordilheira dos Andes via Paso Los Libertadores, um dos mais utilizados na fronteira Argentina-Chile, com todas as suas subidas, descidas, caracoles e paisagens áridas.
Em novembro de 2018 eu, Paula, André e Bruno resolvemos pegar 15 dias de férias para fazermos este rolê, contudo, como o tempo era suficiente, decidimos dar uma esticadinha a mais até Valparaíso, cidade portuária histórica e pitoresca do Pacífico Sul chileno, antes de irmos para Santiago.
Todo o percurso foi majoritariamente em asfalto e é possível fazê-lo de forma autossuficiente ou não (e com qualquer tipo de bike). No nosso caso, como os preços estavam bem atrativos, resolvemos fazer um misto entre Airbnb, hostels e Warmshowers, assim pudemos dispensar a maioria dos itens de camping e carregamos apenas colchonete inflável e saco de dormir (além de roupas, ferramentas básicas, itens pessoais e de higiene etc - claro).

Mapa e roteiro:
Resumindo, o percurso total deu algo em torno de 570km com 6.000m de elevação acumulada, divididos em 9 dias de pedal e 5 dias para descanso + passeios + translado de avião.
- 591,5 km
- 6.179 m de subida
- 3.264 m no ponto mais alto
Passe o dedo no gráfico pra percorrer o caminho. Ver no Ride with GPS
- Vôo de ida e chegada em Mendoza.
- Mendoza - Potrerillos:
- 70km / 1.040m
- Potrerillos - Uspallata:
- 42km / 550m
- Uspallata - Los Penitentes:
- 61km / 1.080m
- Los Penitentes - Las Cuevas:
- 23km / 655m
- Las Cuevas - Los Andes:
- 75km / 195m
- Los Andes - Ocoa:
- 68km / 110m
- Ocoa - Valparaíso:
- 89km / 425m
- Dia de descanso em Valparaíso
- Valparaiso - Curacavi:
- 83km / 1.125m
- Curacaví - Santiago:
- 67km / 825m
- 02 dias de descanso em Santiago.
- Voô de volta para São Paulo.

Sem mais delongas, acho que as fotos falam bem melhor do que eu, então deixo abaixo mais algumas delas e também um relato polido escrito pelo André (a.k.a. Aguinha), que foi publicado junto de algumas dessas imagens nas edições 21 e 158 das revistas Bicycling e Go Outside de 2019, contando um pouco do que foi essa viagem para nós.
Nas legendas fui adicionando mais alguns detalhes sobre os lugares e histórias.

Sob o céu dos Andes.
Texto por André Alonso.
Qualquer um pode fazer uma cicloviagem. Eu sei, porque já fiz duas.
Quase qualquer um, na verdade: é preciso saber pedalar e, claro, é preciso gostar de pedalar - mas isso é o que normalmente acontece com quem começa a pedalar de um jeito ou de outro... Enfim, se você preenche esses dois requisitos, sugiro que pense em fazer uma cicloviagem algum dia: acho que vai adorar.

Uehara e nossa primeira vista de cair o queixo, logo no primeiro dia de pedal: Embalse Potrerillos.
No caso da nossa travessia dos Andes, os dois requisitos já estavam lá, mas a ideia foi surgindo progressivamente - ciclistas podem ser gente meio excêntrica (por que ser normal, afinal?) mas até os mais entusiasmados costumam pensar um pouco antes de atravessar uma Cordilheira. Assumo boa parte da culpa: a sugestão, talvez um tanto excessiva, foi minha, e a insistência para que os amigos viessem também foi minha - quando for sair numa pequena aventura, certifique-se de levar gente sensata com você. Mas a verdade é que nossa intenção original era bem mais simples.
A história foi mais ou menos assim: um amigo, também ciclista, havia se mudado para Santiago do Chile. Por que não aproveitar as férias e visitá-lo? Parecia uma ideia perfeita. Mas quem já fez uma reforma em casa conhece o famoso princípio do “já que”… E assim, a singela visita ao amigo foi mudando de tamanho: já que vamos para Santiago, que tal levarmos as bicicletas para pedalar pela cidade? E já que vamos com bicicletas para Santiago, por que não fazer uma pedalada de um dia até Yerba Loca (sim, há um lugar no Chile chamado Yerba Loca) ou Valparaíso? E já que vamos levar as bicicletas para o Chile e fazer um viagem de um dia, por que não chegar logo a Santiago pedalando? E já que vamos chegar a Santiago pedalando, por que não sair, digamos, de Mendoza, e atravessar a Cordilheira?
Ao contrário do que acontece com certas reformas, não nos arrependemos nem um pouco da megalomania.

Com a ideia definida, começamos o planejamento - algo tão aconselhável em cicloviagens como em reformas, e igualmente provisório em ambas. Considerando os recursos de hoje, mapas online, apps, sites de reservas, não é nada de outro mundo. A ideia era fazer uma viagem econômica, e chegamos a pensar em acampar no caminho, mas a oferta e os preços de hostels e Airbnbs eram mais que adequados, e pudemos deixar as barracas em casa - quanto menos peso na bicicleta, melhor. Também era preciso um mínimo de equipamentos para as eventualidades - ferramentas e vestuário, principalmente - mas uma lição que o cicloturismo ensina (e a gente esquece) é que basta levar alguns poucos itens básicos e práticos: a bicicleta é uma máquina simples, e o corpo humano, bem mais adaptável do que o sedentarismo pode fazer crer. Sempre voltei com a sensação de ter levado um pouco mais do que o necessário nas viagens que fiz - mas nessa última levei menos que na primeira, e na próxima devo levar menos ainda: uma escolha importante, não só pela economia de peso, mas para deixar espaço nas bolsas e alforjes para alimentos e - obviamente - água. Vale a pena investir, porém, dentro do possível, em itens de boa qualidade, leves e confiáveis: no nosso caso, já tínhamos quase todo o material das viagens anteriores, e essas roupas e apetrechos ainda deverão servir em muitas viagens futuras.








Naturalmente também conversamos com pessoas que haviam atravessado a região pedalando, e pesquisamos relatos na internet. Pode parecer incrível, mas quase não há cicloviagem no mundo hoje que não tenha sido feita por alguém, em algum momento, e registrada num blog, vlog ou revista - para não falar de formatos arqueológicos, como livros. Nada de novo sob os pneus.
Eu mesmo já havia feito uma cicloviagem de Barcelona a Paris com o Vitor, grande amigo, ótimo ciclista e excelente fotógrafo (como as imagens dessas páginas demonstram tão bem), e ele próprio já tinha bastante experiência como viajante - na verdade, já tinha feito praticamente a mesma rota andina de moto alguns anos antes, e quanto a isso fez um comentário espontâneo no alto da Cordilheira que é um dos maiores elogios ao cicloturismo: “Da primeira vez, não vi metade do que estou vendo agora…” É fato: outras formas de viajar podem ser mais rápidas ou luxuosas, mas a contemplação da paisagem é um luxo dos “lentos” cicloturistas.
Seja como for, a experiência, sempre útil, não é absolutamente necessária - alguns conhecimentos básicos como trocar um pneu e fazer algum ajuste essencial são importantes (e fáceis de aprender), mas uma bicicleta confiável e bem regulada - em geral, quanto mais simples melhor - e o bom-senso no planejamento e desenrolar do trajeto dão conta da maior parte das situações. No nosso caso, atravessamos uma mistura de regiões bem-servidas de infra-estrutura e áreas relativamente inóspitas em dois países - Argentina e Chile - com bom nível de desenvolvimento no contexto Latino-Americano. Sabíamos essencialmente o que esperar e partimos com ótimas bicicletas, bem preparados para eventuais problemas mecânicos e com boa capacidade de carga, mas sem exageros - com bicicletas mais simples e menos acessórios teria sido perfeitamente possível fazer a mesma viagem.
Também tínhamos uma variedade de experiências no nosso próprio grupo: Vitor, que além de tudo também é um bom mecânico, era o mais experiente como um todo - até por ter feito o trajeto antes, definiu os detalhes da rota e foi o responsável pela “navegação” (era, como eu brincava, o nosso VPS). A Paula, sua namorada, já tinha atravessado o Uruguai pedalando, e usa bicicleta como meio de transporte regularmente, mas não estava tão acostumada a longas subidas, e se superou de maneira extraordinária nesse ponto - acho que posso dizer que voltou da viagem com outra percepção da sua capacidade como ciclista; assim como eu, basicamente apenas um commuter, que há poucos anos teria gargalhado se alguém me dissesse que iria pedalar até o topo dos Andes sem empurrar uma única vez (a não ser quando obrigado pela ventania…). E por último, mas não em último, o Bruno Uehara, ótimo ciclista e excelente mecânico - e mais que excelente pessoa - que nunca tinha feito uma cicloviagem na vida, mas já queria fazer tudo de novo assim que chegamos a Santiago. Insisti bastante para que ele fosse - a velha regra de levar pessoas sensatas - e acho que ele concordaria que valeu a insistência.
Mais que a experiência ou o equipamento, o que realmente importa é o que tínhamos todos os quatro: o entusiasmo, a vontade de sentir a paisagem e a estrada, o prazer de pedalar e de chegar pedalando, de parar a qualquer momento para descobrir algo bonito ou surpreendente, de conversar e conhecer, de adensar o tempo pela experiência e encher os olhos, os pulmões e a memória de natureza - a mesma natureza de que todas essas coisas são feitas, de que todos somos feitos. A beleza é certa e os imprevistos também: parte da beleza vem justamente deles, e parte deles é apenas outra forma de beleza - inesperada, didática ou, simplesmente, ainda não conhecida.









Algumas das paisagens do trecho mais "desértico" da rota, do lado Argentino da cordilheira.
Só me resta, quem sabe, relembrar um pouco dessas belezas e imprevistos e tentar provar o que escrevi no começo: vale a pena fazer uma cicloviagem.
Primeiro, a majestade inesquecível da Cordilheira dos Andes, que vimos do alto antes de dar uma única pedalada; nosso vôo para Mendoza fazia conexão em Santiago, e chegamos ao nosso destino pelo céu antes de chegar pela terra - o que nos deu a oportunidade de medir nossa pequenez diante da natureza duas vezes, e sentir, nas turbulências do vôo, uma prévia do vento que enfrentaríamos na estrada.
Depois, a chegada ao aeroporto, levando a multi-modalidade às últimas consequências: desembarcamos, apanhamos as caixas e montamos as bicicletas lá mesmo, sob o olhar divertido de fileiras de taxistas; e pedalamos o punhado de quilômetros até Mendoza, com sua beleza singela, suas casas ainda assinadas por arquitetos e suas curiosas - e únicas - valetas para a água de degelo.

A Cordilheira dos Andes vista de cima.




Bikes desencaixotadas e montada no aeroporto mesmo, de onde já saímos pedalando para Mendoza.

Mendoza, "Capital de la Belleza".








E então, a viagem propriamente dita: a estrada, com os picos nevados sempre no horizonte, aonde chegaríamos em poucos dias; as dicas de um motoqueiro/ciclista hermano divertidíssimo, que nos pouparam bons quilômetros; os azuis do lago de Potrerillos - e o farmacêutico mais falante da Argentina, que conhecemos ali; a vegetação surpreendente dos vales andinos - pela variedade, pelas cores e pelas verdadeiras nevascas de esporos ao amanhecer; o pôr-do-sol nos Andes, clarão branco se adensando em azul por trás das montanhas; o vale do Rio Mendoza e seus mil tons terrosos e pasteis; o sol forte e o ar seco que, estranhamente, aumentavam a sensação de vida; os altares de beira de estrada, cheios de garrafas d’água e da devoção simples a uma santa dos oprimidos; o churrasco imaginário que comi em Uspallata, preparado por uma linda chef de dois anos de idade, e as empanadas reais, deliciosas, que também comemos por lá; a simpatia do povo interiorano, livre das garras apressadas da “Capital Federal”; a luta contra o vento, transformando descidas em subidas leves e subidas leves em pequenas batalhas; as ruínas Incas, marcando outra estrada, bem mais antiga, nos confins de um Império desaparecido; a comida inesperadamente deliciosa numa parada de caminhoneiros em Polvaredas; a cachoeira que nos surpreendeu e refrescou na beira da pista (e que o Vitor não tinha visto de moto); a primeira visão majestosa do Aconcágua, descortinado ao entardecer por uma curva em aclive; a neve pela primeira vez, na mão e na caramanhola; o vento forte e gelado de uma manhã em Las Cuevas, onde por muito pouco não chegamos a 4.000 metros de altitude; a descida dos famosos Caracoles, driblando o vento e os caminhões no cenário natural mais espetacular que já vivi; a reta de quase 30 quilômetros em declive, despencando do topo cinza e azul da Cordilheira rumo à exuberância do vale, rumo ao Pacífico, quase uma mudança de planeta; o quartel dos bombeiros onde dormimos em Los Andes - um clássico do cicloturismo - e os filhos dos bombeiros, que nos encheram de perguntas divertidas; os pneus furados no que seria o dia mais fácil (valeu, Uehara!) e o restaurante incrível que a Paula descobriu numa ruazinha em Catemu; o chalezinho no crepúsculo plácido e sereno de Ocoa; a chegada ao oceano em Con-Con (e o restaurante estranho, com gente esquisita); as ladeiras, as cores e os grafites de Valparaíso (e as aventuras nas “quebradas” de Valparaíso); as saborosíssimas nêsperas de Curacavi, que uma senhora gentil me deu na porta do mercado e que amarrei na bicicleta; a linda e dura subida antes de Santiago (no topo dela, comemos as nêsperas); a chegada a Santiago, num pelotão cerrado para evitar os riscos da auto-estrada; e o pôr-do-sol no Cerro, com a cidade espalhada, espraiada abaixo, e as silhuetas dos três amigos que viveram tudo isso recortadas em primeiro plano.











Paisagens na estrada no trecho entre Potrerillos e Los Penitentes.








Cenas durante a "subida de 4 dias" até alcançarmos o paso Los Libertadores: muito sol, banho na cachoeira de desgelo na beira da estrada, muito vento contra, pôr do sol com Aconcágua ao fundo e nossa hospedagem em Los Penitentes.

@ueharacc metendo o loco no morrinho.










Quase em Las Cuevas, num pequeno desvio de rota que fizemos para chegar mais perto da neve.






Últimas paisagens antes de Las Cuevas e os quase 4.000 m de altitude.





Hostel e paisagens nos arredores de Las Cuevas, última cidade argentina antes de cruzarmos o paso.







Carona com os guardas argentinos para cruzarmos o Tunel Del Cristo Redentor. Não é permitido passar de bike pelo túnel, que tem 3km de extensão, então basta aguardar na entrada que eles te levam numa boa. É possível desviar da rota principal e cruzar pedalando pela Estrada Del Cristo Redentor, acrescentando mais ou menos 9km de subida íngreme em estrada de terra. Essa era nossa ideia inicial, mas o caminho estava fechado de neve nos últimos km, impossibilitando a passagem, então optamos pelo túnel mesmo.



Logo após o túnel nos deparamos com a placa: já estávamos no Chile. Foi só fazer a papelada de fronteira e descer rumo ao pacífico.






Ponto alto da viagem: Los Caracoles, trecho mais famoso desta estrada que une Argentina e Chile via cordilheira, com seus mais de 20 cotovelos desenhados bem no meio das montanhas. Descida com diversão garantida pra qualquer viajante e em especial pros ciclistas que acabaram de passar 4 dias subindo pelo outro lado. Foi loco.



Foto para posteridade com os "bombeiros mirins" do corpo de bombeiros de Los Andes, que nos receberam por uma noite.









Trechos entre Los Andes e Valparaíso.
Eu insisto: se você sabe pedalar e gosta de pedalar, faça uma cicloviagem. Pequena ou grande, não importa - todas são enormes, porque o mundo é enorme. Escolha a rota, empacote a bicicleta (caixas numa bicicletaria perto de você) e parta. Pensando bem, a minha talvez não tenha começado em Mendoza, e nem mesmo dois anos antes em Barcelona, mas quem sabe quando fui ao trabalho de bicicleta pela primeira vez, ou antes, quando pedalei para buscar pão para a minha avó, ou talvez, até mesmo, com a primeira bicicletinha na infância - essa época em que o tempo passa devagar porque tudo é novo, e a gente tem a natureza nos olhos, nos pulmões e na memória. Não é preciso muito, afinal: qualquer um pode fazer uma cicloviagem.

Chegada em Val Paraíso.







Rolezinhos turísticos por Val Paraíso em nosso dia de descanso.







Saída sofrida, porém recompensada, de Valparaíso. Demoramos mais ou menos 1 hora pra andar, sei lá, 2km talvez, tamanha era a ladeira treta pra sair da cidade.





Cuesta Lo Prado, (finalmente) última serra antes de Santiago. Dura, mas bem bonita.



Descida recompensadora da Cuesta Lo Prado, pra fechar com chave de ouro nosso último dia de pedal.



E fim! Nosso destino final, Santiago, vista de cima do Cerro San Cristóbal, num pôr do sol no dia seguinte em que chegamos.

Essa não poderia faltar, né?

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Bicycling (edição 21 - março/abril 2019) e Go Outside (edição 158 - abril/maio 2019).
Sempre dahora ver uma viagem assim publicada e impressa em algo!




