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Relativamente pouco conhecido em El Chaltén - destino dos sonhos pra quem curte hiking, trekking ou escalada - a Vuelta al Cerro Huemul é um circuito de 4 ou 5 dias de caminhada autossuficiente em uma das regiões remotas do Parque Nacional Los Glaciares, maior sistema nacional de áreas protegidas dentro da Patagônia argentina.
Eu e Paula não temos uma vasta experiência ou somos grandes experts no mundo do trekking/hiking, embora sejamos entusiastas e já tenhamos feito várias trilhas curtas e algumas travessias. De qualquer modo, concordamos em dizer que esta foi uma das experiências mais difíceis/desafiadoras e emocionantes/incríveis que já fizemos.
Convidados e convencidos por outros 2 casais que conhecemos enquanto pedalávamos a Carretera Austral, no Chile - mais especificamente em Villa O'Higgins, onde juntos iniciamos a travessia para Argentina via Candelario Mancilla, poucos dias antes -, concordamos que seria uma boa ideia encarar esse rolê para matarmos nossa vontade de fazer um trekking mais longo e isolado.
Confesso que não estávamos, digamos, 100% preparados hahahaha. Físicamente ok, sem problemas: nos sentíamos bem e, quando chegamos em El Chaltén, tínhamos acabado de passar os últimos 3 meses viajando de bike pela Patagônia chilena, então beleza. Nosso equipamento é que não era exatamente o maaaaaais adequado: na viagem de bike usamos alforjes e equipamentos algumas vezes diferentes dos normalmente indicados para caminhar (calçados, roupas específicas, mochilões, bastões etc).
De qualquer modo, achamos que valia a pena, fizemos umas adaptações e decidimos ir.

Equipamento
Em resumo, isso foi o que levamos:
Carga:
- Mochilão Ortlieb Gear-Pack 40l;
- Mochila Lowe Alpine Eclipse 25l;
- Sacos estanque menores presos no mochilão por fora para aumentar nossa "capacidade de carga".
Eletrônicos:
- Câmera 5D Mark II, lente 28mm f1.8, cartões e bateria extra;
- Celular;
- GPS Garmin Edge 1000 (feito pra ciclismo, mas usei pra gravar e me localizar nas trilhas e foi de boa);
- Powerbank.
Camping:
- Barraca MSR Hubba Hubba NX (duas pessoas);
- Dois sacos de dormir Ferrino Lightec 800 Duvet (confortável até -2°C);
- Dois liners Sea To Summit Reactor Compact Plus;
- Isolante inflável Quechua;
- Isolante inflável Thermarest Prolite Regular;
- Travesseiro inflável Quechua;
- Fogareiro MSR Whisperlite International;
- Kit de cozinha Stanley Prep & Cook (panela, talheres etc);
- Lanternas de cabeça;
- Kit de primeiros socorros;
- Papel higiênico.
Roupas:
- 1 bom casaco impermeável para cada;
- 1 camiseta cada (sim, usamos a mesma todo dia);
- 1 bermuda para caminhar (Vitor);
- 1 calça legging para caminhar (Paula);
- 1 cueca para dormir (Vitor);
- 1 calça e uma blusa "segunda pele" de merino para dormir (Paula);
- 1 bom fleece para cada (usamos para dormir);
- Cuecas e calcinhas (1 por dia);
- 1 pernito (Vitor);
- 1 corta vento (Paula).
Calçados:
- Bota Timberland véia de guerra (Vitor);
- Bota Salomon topzera (Paula);
- Meias de qualidade duvidosa (mas era o que tinha);
- *Papetes.
Comida:
- **Café da manhã, almoço, janta e coisas para beliscar pros 4 dias;
- 1 garrafa de 700ml e outra de 1l de água que fomos reabastecendo pelo caminho (relativamente fácil, embora tenha faltado um pouco no último dia).

*Parece meio desnecessário levar, mas deu uma bela salvada no final do dia: descansar os pés (e as bolhas kkkkkk) fora da bota depois de horas caminhando foi uma alegria necessária. Além disso, salvou mais ainda no último dia, quando usei para caminhar os últimos quilômetros depois da minha bota pedir arrego e descolar a sola por completo (já contávamos com essa possibilidade - R.I.P).
**Provavelmente aqui é onde poderíamos ter economizado mais peso/volume levando comida liofilizada, snacks específicos para trekking, pózinhos/gélzinhos tecnológicos ou coisas do tipo, MAS, estávamos no modo econômico e isso custava um dinheiro que não queríamos gastar.

Além disso, o Parque Nacional exige que você leve equipamento para tirolesa (cadeirinha + mosquetão adequado + corda adequada), pois em dois pontos da trilha é necessário fazer a travessia de rios. A tirolesa já existe lá, mas você precisa ter como se pendurar nela. Neste caso, alugamos e levamos este equipamento (as lojas de montanha em El Chaltén já estão acostumadas e tem equipamento para aluguel por preços módicos).
E por falar em coisas exigidas pelo Parque, para fazer a travessia é necessário também se inscrever com antecedência, fazendo um registro na sede e assistindo um vídeo explicativo da trilha (bastante útil, aliás), assim como dar baixa quando chegar de volta, pois teoricamente eles fazem uma checagem entre quem saiu e quem voltou, já que a travessia é não guiada e isolada de comunicação.
A caminhada em si passa por trechos mais tranquilos, com trilha bem demarcada e terreno fácil, mas também por partes bem complicadas, onde fica mais difícil se guiar sem a ajuda de um GPS e preparo físico adequado, pois tem subidas bastante íngremes e longas, com pedras soltas, escalaminhada etc.
No mais, as paisagens são absurdas de bonitas, com direito a muitas montanhas, formações rochosas, neve, descampados, bosques mais fechados, glaciares, campo de gelo, muitos lagos, rios de degelo, passos com vistas panorâmicas e até a oportunidade de caminhar sobre uma geleira gigante. É foda.



Roteiro
Nós escolhemos fazer a caminhada em 4 dias, achamos que era suficiente e assim precisaríamos levar menos comida. O roteiro ficou assim:
- El Chaltén - Laguna Toro
- 27,84km
- Laguna Toro - Paso del Viento
- 12,87km
- Paso del Viento - Bahia de Hornos
- 17,26km
- Bahia de Hornos - El Chaltén
- 23,10km
- 85,7 km a pé
- 3.013 m de subida
- 1.346 m no ponto mais alto
Passe o dedo no gráfico pra percorrer o caminho. Ver no Ride with GPS
Dia 01

Saída: El Chaltén
Chegada: Área de camping Laguna Toro
Distância: 27,84km
Elevação acumulada: 1.411m
Tempo total gasto: 9h20min
Este primeiro dia normalmente é mais curto, com aproximadamente 20km de caminhada, mas aproveitamos que "estava no caminho" e adicionamos um "desvio" de 7km logo no início para irmos até Loma del Pliegue Tumbado, uma pequena montanha da onde é possível ter uma vista panorâmica da Laguna Torre e do Cerro Fitz Roy. Valeu a pena! Apesar de nos cansarmos um pouco mais, a vista compensou bastante.
Saindo de lá, seguimos pelo Valle del Río Túnel em direção a Laguna Toro, onde encontra-se a primeira área autorizada para camping. Este primeiro dia já é bonitaço! Várias vistas bonitas, caminhada num nível de esforço bem interessante, muita natureza… Tudo que se pode esperar de um rolê assim. Mesmo um bate e volta acampando apenas um dia já teria valido a pena.
Nota: No fim do dia fui buscar água no Río Túnel para cozinhar nossa janta (aquela macarronada clássica) e tive a brilhante ideia de dar uma lavada no rosto e nos braços. Foi a coisa mais congelante que já encostei na vida, achei que ia perder os dedos. Frio demais, pqp. hahahaha Demorei um tempo considerável pra conseguir aquecer de novo.

Vista da Laguna Torre e do Cerro Fitz Roy de cima da Loma del Pliegue Tumbado.



Início do trecho em direção a Laguna Toro.

Valle del Río Túnel, com Cerro Huemul à esquerda.



Valle del Río Túnel e o caminho que teríamos pela frente.
Dia 02

Saída: Área de camping Laguna Toro
Chegada: Área de camping Paso del Viento
Distância: 12,87km
Elevação acumulada: 950m
Tempo total gasto: 9h30min
O segundo dia é um dos mais duros e bonitos. Começamos contornando a Laguna Toro, depois fizemos uma travessia do Río Túnel com tirolesa e seguimos rumo ao Paso del Viento, subindo mais ou menos 900m em 8km, com direito a caminhar sobre a geleira do Río Túnel e escalaminhar um barranco de pedras soltas logo na sequência. Meio tenso no começo, mas depois que subimos foi "tranquilo", então seguimos caminhando pela trilha até o topo do passo.
Vistas indescritíveis da Laguna Túnel Superior, do próprio Glaciar Río Túnel Superior e, pela primeira vez, do Campo de Hielo Patagónico Sur, terceira maior extensão de gelo continental do mundo. É realmente impressionante. Como se você tivesse olhando pro mar do topo de uma montanha, mas não é água, é gelo. Branco. Azul. Infinito.
Depois de alguns bons minutos ali, recuperando e perdendo o fôlego, tocamos o barco e descemos uns quilómetros até outra área onde se pode acampar no final do segundo dia. Quase chegando, fizemos uma parada estratégica no caminho para tomar banho em pequenas "banheiras" naturais que encontramos. Ainda tava sol, então a água gelada não foi grande problema.
Nota: O Paso del Viento tem este nome, obviamente, por costumar ter ventos muito fortes no topo, assim como às vezes chuva e neve. Ventos patagônicos, no caso. Ou seja, tem que estar preparado, pois pode fazer um frio da preula. Nós demos sorte e tomamos só um ventinho.








Não me lembro o nome dessa laguna e não consegui encontrar nos mapas, ela era um pouco menor que as outras e uma das únicas com essa cor "verde-transparente" . A trilha seguia pelo seu lado esquerdo, onde da pra ver a gente bem pequenininho.




Primeira travessia com tirolesa do Río Túnel.





Trechos cruzando parte do Glaciar Río Túnel Inferior, um dos poucos onde é possível caminhar sem a necessidade de grampão para gelo.

O gigante Glaciar Río Túnel Inferior (e duas mini pessoas à direita da foto).



Glaciar Río Túnel Superior (esquerda), Laguna Túnel Superior (meio) e Glaciar Río Túnel Inferior (direita).



Vista do topo do Paso del Viento, com as montanhas do Campo de Hielo Patagónico Sur ao fundo.

Panorâmica de cima do passo.






Paradinha estratégica pra tomar um banho pouco antes do final do segundo dia.
Dia 03

Saída: Área de camping Paso del Viento
Chegada: Área de camping na Bahia de Hornos
Distância: 17,26km
Elevação acumulada: 700m
Tempo total gasto: 9h
Saímos cedo pela manhã e já sacamos que o cansaço começava a bater (além das bolhas nos pés, que já começavam a incomodar kkkkk). Teoricamente seria um dia um pouco mais tranquilo, pois teríamos subidas mais curtas para cruzar um segundo passo e depois teríamos um grande trecho de descida, que seria mais de boa. Pura ilusão hahahaha.
Começamos contornando o Cerro Huemul, com o gigantesco Glaciar Viedma à nossa direita e uma ascensão de mais ou menos 400m acumulados até o Paso Huemul, da onde se pode ver grande parte do Lago Viedma, seu glaciar e, bem de longe, as baías onde se pode acampar e onde passaríamos a noite. A vista no topo do passo é bem impactante e, pra falar a verdade, eu achei essa subida mais treta do que a subida do passo anterior, apesar de menor. Talvez tenha sido pelo cansaço, mas não sei.
Seguimos caminhando e começou a descida: foi insano hahahahaha. Puta montanha inclinada e longa pra caramba, parecia que não acabava nunca e tinha uma vista absurda do Lago Viedma e seus icebergs gigantes, mas ficava até difícil de ver, tamanha era a tensão pra não sair rolando morro abaixo. Foto nem tirei, por exemplo. Demos altas escorregadas no terreno meio "arenoso", cheio de raízes e pedras, mas foi dahora! Descemos rindo de nervoso. Caminhada com emoção hahaha.
Por fim, chegamos vivos na Bahía de los Témpanos, onde teoricamente deveríamos acampar. Desistimos, pois estava meio cheio e não teria espaço para nossas barracas, então tivemos que caminhar mais um pouco e alcançamos a Bahía de Hornos. Foi ótimo, estava bem mais vazia e tinha uma vista incrível pro lago, pro glaciar, pros pedaços gigantes de gelo boiando bem na nossa frente e prum pôr do sol de chorar. Jantamos e fomos dormir.
Nota: No meio da descida demos a sorte de ouvir um estrondo bem grande, tipo um trovão... Quando olhamos pra baixo e para o lago, tava rolando o desprendimento de um iceberg gigante, bem na nossa cara. Bom, de lá de cima parecia apenas uma pequena pedra de gelo flutuando sobre o lago, mas pelo barulho que fez e olhando lá de baixo depois, percebemos que era grande pra caramba.




Tomando nosso café e começando a desmontar as coisas enquanto amanhecia no acampamento "Paso del Viento".

Início da trilha contornando a lateral do Cerro Huemul.




Paradinha estratégica enquanto descansávamos um pouco e curtíamos a vista do Glaciar Viedma.

Romain, Samuel, Marie, Léna e Paula.

Glaciar Viedma.



Uma das primeiras vistas que tivemos do Lago Viedma durante a descida do Paso Huemul. Grande parte dessa água vem do desgelo de vários glaciares da região e do derretimento desses icebergs que desprendem do Viedma.



Barracas montadas, panelas no fogo e pôr do sol na Bahía de Hornos.
Dia 04

Saída: Área de camping na Bahia de Hornos
Chegada: El Chaltén
Distância: 23,10km
Elevação acumulada: 850m
Tempo total gasto: 8h20min
O último dia foi um misto de tristeza por estar acabando, vontade de continuar andando por aquele lugar e, ao mesmo tempo, "alívio" por saber que seriam os últimos 20km antes de alguma bebida gelada e um dia de descanso completo para nossos inexperientes pés hahaha.
Com uma altimetria bem mais tranquila, andamos por uma paisagem bem diferente dos outros dias, igualmente bonita, mas sem neve, com menos montanhas e bem mais aquela cara de estepe patagônica, sempre tendo o Lago Viedma a nossa direita como referência.
A parte emocionante do dia ficou por conta de mais uma travessia via tirolesa no Rio Túnel e a parte sofrência por conta do sol que estava forte, do cansaço batendo e dos último quilômetros que pareciam beeeeeeem longos. Quase não tirei fotos neste dia.
Seguimos e finalmente alcançamos El Chaltén novamente. Cansados, mas mais do que satisfeitos.
- Distância somada total: 80km
- Elevação acumulada total: 3.000m

Nascer do sol, a Bahía de Hornos e os "témpanos" de dentro da nossa suíte na última manhã do rolê.

Lago Viedma e a estepe patagônica.
Outras Informações
Fomos em fevereiro e demos uma baita sorte, pois pegamos uma janela de tempo rara para região, com 4 dias seguidos de sol durante todo o dia e frio "leve" durante a noite, sem chuva e sem neve. Foi perfeito. É bem normal viradas inesperadas na condição climática, então é bom estar minimamente preparado.
Entre novembro e março é também a alta temporada (em especial Janeiro), quando as trilhas costumam ter mais gente, mas achamos bem tranquilo, nada que fizesse o rolê perder a graça. Por um lado, na verdade, achamos até bom, pois as chances de você não se ferrar e encontrar ajuda caso alguma merda aconteça é maior.
Em todo caso, nós estávamos em seis: Eu e Paula, Marie e Samuel (belgas), Romain e Léna (franceses). Eles tinham mais experiência em hiking do que nós, então geralmente estavam sempre alguns passos à frente hahaha. Durante o dia caminhamos bastante com eles e em alguns outros momentos sozinhos. No final do dia era sempre dahora: chegávamos nos lugares onde se pode acampar e meio de longe já era possível ver as barracas das outras pessoas espalhadas no meio da paisagem. Europeus aos montes (óbvio), americanos, latinos e alguns poucos de outros lugares. Era dahora ir andando pelas barracas e escutar conversas em várias línguas. E, claro, pra quem curte coisas outdoor, é legal demais ficar reparando nas barracas, equipamentos e tudo mais. Pra quem não tem companhia certa e não curte a ideia de ir sozinho, em El Chaltén é bem comum encontrar recados de viajantes nas paredes dos campings e hostels procurando parceiros para fazer essa travessia.
El Chaltén é uma cidadezinha pequena porém bem estruturada, tem de tudo: todo tipo de hospedagem, restaurante, mercado, lojas boas de camping etc. Pesquisando na internet você acha muita informação sobre lá e sobre as dezenas de trilhas. Eu e Paula ficamos mais ou menos uma semana por lá e nos hospedamos em um camping.

Extra
Laguna Sucia - Lagunas Madre e Hija - Mirador Cerro Torre.
Dois dias antes de fazer o circuito fomos conhecer uma das trilhas mais famosas da região, que leva a Laguna de los Tres. Na verdade, no final da trilha desviamos e fomos para a Laguna Sucia, mas é quase a mesma coisa. Demos uma esticada e acabamos andando 30km, passando pelo mirador do Cerro Fitz Roy, depois a própria Laguna Sucia, Lagunas Madre e Hija e no final o Mirador Cerro Torre.
É um ótimo hiking para quem não pode ou não curte acampar na trilha.
- 32,5 km a pé
- 860 m de subida
- 893 m no ponto mais alto
Passe o dedo no gráfico pra percorrer o caminho. Ver no Ride with GPS














Compilado de alguns trechos dessa trilha, com destaque pra foto das barracas na área de camping Poincenot. Nós não fizemos, mas é possível ficar acampado ali e usar como base pra explorar diversas outras trilhas de 1 dia nos arredores.

Fitz Roy ao fundo e trecho de pedras pouco antes de chegar na Laguna Sucia. Cecília (embaixo, à esquerda) e Gaetan (em cima, à direita) para dar um pouco da dimensão do lugar.


Laguna Sucia. Além da laguna em si ser incrível, com água azul-transparente e um silêncio hipnotizante, é um dos pontos facilmente alcançáveis mais próximos do Fitz Roy.



¡Fin!